segunda-feira, 2 de maio de 2011

Pés tortos.

Do poeta que não se deita

a voz se cala

a noite se estreita

cantarola

afomenta a vontade de ser

de ir para a escola

de adormecer.

Olhos e alma que ninguém vê

ninguém sabe

ninguém crê

espera que se acabe.

Do poeta que não se solta

as palavras morrem

não tem mais volta

vá embora

pois é o dia não vai começar agora.

As palavras são sua voz. Esse era o lema do universo único de Isabel, nossa heroína. Citara a frase poucas vezes em público, mas incontáveis na prosa do seu próprio silêncio. Poesias saiam de si como suor em dias de verão, mas nunca se tornaram livres para voar. Como poderiam? Isabel era prisioneira do seu próprio medo de viver. De ser livre. De ser ela mesma.

E esse medo era sua própria criação. Nascera e se alimentara de dentro do seu coração. Não viera de fora. Não viera de sua mãe Janine, uma francesa abrasileirada de boa índole e criação, que amava seus filhos acima de tudo. Tampouco viera do seu pai, Luis, filho de italianos, trabalhador como a raça manda, pouco sabido da experiência meticulosa de ser pai. De seus irmãos, nem se fala! Cada um era um mundo tão espontâneo e tão singelo que jamais seriam capazes de semear qualquer tumulto nela.

O problema sempre fora ela. Seus receios, sua fragilidade perante o mundo, sua inocência e sua náusea por malícia eram o nutriente para sua falta de querer falar a alma. Sua preocupação era passar despercebida, nem cheirava, nem fedia, e não ser assunto à mesa de jantar. Exercia seu papel. Era impecável. Mas infeliz. Por puro medo de ser feliz.

Por anos implorou a Deus para ser o melhor que podia ser, no íntimo do seu quarto, à beira do sono. Mas essa vontade era discreta, sem voz própria e sem muito entusiasmo, pois o entusiasmo poderia ser alvo de críticas e nunca se dera bem com negativismo. Era apenas um apoio ao seu medo. E viver com medo era melhor do que viver na boca preocupada e cheia de poréns dos que a miravam pelo caminho.

Quer dizer, Isabel teve lapsos de coragem. Todos, obviamente, momentâneos. Esporádicos. Impulsivos. E bem sabemos que o impulso normalmente é impensado, logo, ilógico, resultando apenas em uma vaga lembrança de valentia. Assim, Isabel passou a se julgar fraca, além de medrosa. Uma combinação fatal.

Tenho cara de menina

dou risada

divertida

mas a certidão é velha

um lugar diverso

uma sina cega

ingênua

observadora.

Sou a jovem adulta

mais inculta

mais inativa

com mais feridas

do mundo novo.

Mas agora, longe do mundo que conhecia, Isabel se sentia única. Demorou a perceber isso. Demorou a enxergar que a beleza e o suprimento da vida era ter uma sombra própria, não se espelhar na de outrem. A do outro poderia ser o ideal, mas mesmo assim não a pertencia. Não tinha sua forma, o seu peso, a sua densidade. Não tinha o seu timing, sua bússola, sua sensibilidade. Era impura. Era ilegítima. Era outra.

Então, ali ela jazia, numa casa que não era sua, em um ambiente que desconhecia totalmente. A situação estava longe de ser boa, mas ao menos, era só sua. Sua e do seu marido, Thomas. Percebeu ali, sentada naquele sofá-cama de três lugares, em um apartamento minúsculo, que nada a havia forçado a seguir aquele caminho; o fez para finalmente ser livre. A escolha poderia ter sido errada à olhares distintos, mas ainda assim era sua. O ganho e a consequência eram seus. E tudo a alegrava, mesmo que não aparentemente. Sentia-se mulher. A mulher que era adulta, formada e com uma jornada plena e vívida. Uma aventura. A sua aventura.

Naquele dia, sorriu para o marido, adormecido ao seu lado. Havia embarcado com ele no mistério da vida adulta há quase dois anos. Ela sempre soube, desde que o viu pela primeira vez, que seria aquele moreno alto dono do mais belo sorriso o homem que esperou conhecer e pertencer. De lá até aqui, o caminho foi árduo, mas nunca separado dele. Jamais longe dele. A verdade era tão incontestável que se casou com ele três meses depois do primeiro beijo que trocaram. Quase sorriu ao se lembrar do dia da cerimônia, simples e ligeira como sempre sonhou, e da repercussão das duas famílias. Um choque. Mais críticas do que felicitações. Mas tanto Isabel quanto Thomas não se importaram. Sabiam que ninguém em sã consciência se casaria sem alguma segurança financeira. Ninguém se casaria para morar em uma casa conjugada no centro da cidade, sem dinheiro para financiar um carro, um apartamento, um futuro.

Mas Isabel e Thomas sim.

Nossa heroína era uma poetisa nata e uma bailarina de pés tortos, mas trabalhava com design. Não era um sonho de carreira, mas definitivamente era boa na área. Era inquestionável. Tinha vocação para o negócio, mas o amor. Amor mesmo, só pela poesia. Ela era sua voz em melodia. Seus pés tortos endireitavam-se com sua expressão. Tudo que vem do coração é música e poesia, pensava. Logo, a pureza de um ser nasce e morre ali, sem o menor arrependimento. Era uma lógica ilógica.

[Trecho do 1º Capítulo de "A poetisa e as margaridas - Rebeca Bondioli]

1 comentários:

  1. vc se espelha em voce para escrever suas poesias? :)

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