segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Conto por conto.

A filha nascida do coração não do ventre era um bebê bem gorducho. Morena jambo. Nasceu com bastante cabelo e olhos bem pretos, como o breu. Jabuticabas, redondas e brilhantes. Tinha grande apetite e dobrinhas nos braços e pernas. Era quieta e curiosa. Seu pai a levava para passear, exibindo com orgulho a filha indiazinha. Sua mãe dizia que ela gostava de comer batatinha, mandioquinha e cenourinha cozidas.

Viveu os primeiros anos da vida num país estrangeiro. Tem poucas memórias do lugar, mas gosta de admirar as fotos. Lagos, Nigéria. Kaduna. País de desordem e calor quase insuportável, mas culturalmente rico. Lembra dos sorrisos. Das músicas. Das vestimentas. Dos artesanatos. Da comida. Do cheiro. Principalmente do cheiro.

Com o divórcio dos pais, voltava ao país africano uma ou duas vezes por ano, nas férias escolares. Julho e janeiro. Julho era tão quente quanto Janeiro. Mas não era mais a mesma coisa. Passou muitos aniversários entre sorrisos infelizes e nenhuma surpresa. Então, com o tempo, se deu conta que aquele lugar era apenas uma lembrança e só o amava como tal.

Depois de um tempo, nunca mais voltou. Estudou em uma escola, depois em outra. Aprendeu inglês rapidamente -não porque a mãe era professora, mas porque gostava. Falava com Deus em inglês. Falava com suas bonecas em inglês. Falava sozinha em inglês. Aprendeu também geografia, gramática, literatura, história e biologia(não em inglês, mas tentava por curiosidade). Aprendeu a desenhar, a pintar. Aprendeu a cantar, a dançar, a atuar. Mas não aprendeu matemática. Nem física. Nem química.

Nunca foi popular na escola. Gostava do seu mundo particular. Desenhava e escrevia todos os mitos do seu universo. Sua melhor amiga (até hoje) fora quem tomou a iniciativa de se aproximar. Confiava nas pessoas. Queria confiar. Gostava das suas personalidades, mesmo se não fossem agradáveis aos olhos do mundo. Teve alguns amigos. Depois, muitos. Logo, perdera boa parte deles e conquistou novos. Poucos, mas inigualáveis. Era sortuda.

Foi criada bem. Sua mãe, mulher guerreira e em quem se espelhou, arranjou forças sobrenaturais para criar três filhos sem ajuda constante do pai. Lembra muito bem da batalha mensal para pagar sua escola, os materiais, os uniformes. Era um grande sacrifício. Lembra que frequentava a igreja todos os domingos. Era legal. Gostava do ambiente, das pessoas que sorriam para ela. Cresceu em meio a pessoas muito boas. Tinha princípios fortes. Tinha fé. Era educada até com quem não merecia. Não se vingava, não se metia em briga. Sempre dava a outra face. Amava sua família, sua tradição, seus amigos, Deus. Seu amor genuíno. Era feliz.

Mas houve um período que não foi feliz. Sofreu. Sofreu muito, por amo ao pai. A negligência dele machucou a ela e a seus irmãos. Teve pânico. Teve tumor no seio. Teve medo. Muitas noites chorou até adormecer e abandonou a sala de aula para esconder sua tristeza. Ele não a conhecia e a julgava. Ouviu palavras em negrito e em caixa alta que nunca mais esqueceu. Nunca mais fora segura consigo mesmo. A pouca voz que tinha para enfrentar a vida, desapareceu. Seu irmão mais velho teve sérios problemas nos rins e o caçula, na pele. Por quê, se perguntava. Por que ele não quis cuidar da gente?

Fora um período difícil. Uma guerra na família e entre famílias. Irmãos contra irmãos, filhos contra pais. Um desgaste emocional. Uma cicatriz frequentemente reaberta. Uma lembrança, uma lição. “Não seremos assim”, disse aos irmãos. “Nós somos irmãos. Crescemos juntos. Passamos por poucas e boas. E nós ficaremos unidos não por dinheiro, mas por amor”.

E assim foi. O maremoto cessou, enfim. Veio a brandura. Cresceu. Seu corpo tomou forma, seu coração, cor. Tivera muita dificuldade em gostar do que via no espelho. Achava seu nariz pequeno, sua boca torta, seu cabelo sem graça. Seus pés então, nem se fala! Ora se achava gorda, ora magra. Ora baixinha, ora alta. Não se achava merecedora de olhares. Vaidade não tinha utilidade. O reflexo de insegurança. Mas sonhava. Quando pôde, se tatuou. Uma vez. Duas. Três. Quatro e cinco. Queria mais, na verdade. Criou um próprio estilo. Criou um vínculo com sua própria moda. Não se criticava mais, apenas se respeitava. Era diferente. Era exótica. Ponto final.

Desejou ser, do fundo do coração, professora; depois astronauta. Escritora passou pela sua mente, mas achou que cantar seria uma boa opção. Mas era tímida e insegura demais para enfrentar palcos. Quis ser Bailarina. Desenhista. Cineasta. Desistiu. Voltou a querer escrever. Mas só a querer.

Não dizia para ninguém as vontades do seu coração – só para sua terapeuta quando, obviamente, conseguia. Conversar nunca fora seu forte. Puxar papo era quase um sacrifício físico. Sempre falou o necessário. E sorria, como sorria! Gostava de dar risada (e de, se fosse capaz, fazer os outros rirem). Foi pelo sorriso que começou a trabalhar com entretenimento. Era nerd. Assumiu seu imenso interesse por cinema, games, animação, quadrinhos, livros. Toneladas de livros, se possível. Começou a se abrir, ainda com dificuldade. Dizer o que pensa. Opinar, discordar. Um novo mundo.

E foi nesse novo mundo que descobriu que sua inocência era facilmente destruída. Sua confiança era ludibriada sem maiores esforços. Nem todas as pessoas era boas. Nem todas as pessoas eram interessantes. Nem todas as pessoas eram verdadeiras. Decepção. Conhecia um novo sabor do desgosto. Não era bom. Aprendeu, no entanto. Levantou-se e abandonou aquele mundo para seguir seu caminho, seja ele qual fosse.

Os animais fizeram parte do seu caminho. Seu primeiro cachorro era um basset-hound muito espirituoso. Era comilão, dorminhoco e brincalhão. Muito companheiro em dias sem sol e extremamente fiel. Alguns anos depois do seu falecimento, recebera outro cão; desta vez, um vira-lata. Ele não parecia um vira-lata – gostava de imaginar que suas cores tão bem desenhadas eram obras do Divino. Gostava dos olhos dele, dizia que eram sinceros. Era um canino divertido e que gostava de muito carinho. O sol era seu amigo e tivera dezenas de almofadinhas para morder. Mais tarde, ganhou um gato. Na verdade, uma gata. Nunca fora fã de felinos, mas essa pequena bolinha de pelos logo ganhou espaço no seu coração. E provavelmente, não seria a última.

Ao longo da sua jornada, recitou palavras de amor dentro de si. Apaixonou-se sem reciprocidade inúmeras vezes, como uma boa menina descobrindo os olhos de outro alguém. Quando realmente entregou seu coração, ele foi quebrado logo de cara. Magoou-se, lamentou-se, isolou-se. Sentia-se a única romântica do mundo moderno, solitária e incompreendida por uma legião de insensíveis. Mas se levantou. Tentou de novo. E de novo. E de novo. Até enfim achá-lo.

Ao contrário de todos os contos de fadas que admirava, a vida a dois não era um mar de rosas. Nunca quis que fosse, na verdade. Amava-o. Amava-o exatamente porque ele não era perfeito, mas era ideal. Lembra quando o conheceu, os olhares, os toques, as risadas, os sonhos, as promessas, as realizações. Lembra também dos problemas que passaram e que superaram. Lembra que não foi a primeira vez que discriminaram suas raízes, suas tradições, um pedaço de si. Lembra que só queria ser aceita como era. Lembra dos ciúmes, da solidão. Mas acima de tudo, lembra do amor. Isso bastava.

Hoje, ela está formada, não é mais gorducha, tem cara de adolescente, ainda sorri e ri de tudo. Da vida, da própria piada. Amargura (não muito) os sonhos que não realizou, mas busca na fé a sua bússola. passa dificuldades financeiras, mas acredita que seja passageiro. É o que diz e como age. Viveu anos fazendo o que sabia, não o que gostava. Não queria mais ter medo de arriscar. Queria ser feliz.

Agora, ela quer escrever.

E escreve.

8 comentários:

  1. Amei, sorri, e chorei. Amo-te! Morena.

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  2. Que lindo, filha!!!!

    E te dou a maior força na escrita! You like it and you do it well!

    Love you always!

    mom

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  3. Rebeca, você será grande! Grande mesmo!

    Espero ansiosa pelos seus trabalhos.

    Alexandra

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  4. que delicia ler o que você escreve rebi.
    não deixe de escrever nunca, é muito gostoso mesmo!
    e que história linda... que lindo... também acredito que c será grande na vida
    um beijão rebii orgulhooo

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  5. é isso aí maravilhoso. FAzer o que se ama, somente.

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  6. Fico feliz que ela tenha começado a escrever.
    Acredito que ela tem potencial para ser muito bem sucedida.

    E espero que ela seja feliz sempre, ou, pelo menos, pela maior quantidade de tempo possível. ^^

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  7. Muito phoda. logo na primeira frase sabia que era você. Parabens espero que escreva mais e mais. aguardo por noticias quando publicar algum livro.

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  8. É uma história tão linda. Daquelas que a pessoa que escreve merece um abraço demorado.

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