quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

A primeira parte.

Estavam virando rotina as visitas dos policiais no CH Bar. Charlotte já estava acostumada. Numa tarde nublada, dois oficiais adentraram no salão mal iluminado, com suas fardas imponentes e olhares de aversão.

-Srta. Fontaine?

Charlie limpava as garrafas de whisky e de vodka, atrás do balcão de madeira escura. Nem sequer se deu ao trabalho de cumprimentá-los.

-Vou começar a cobrar consumação de vocês.

-Podemos conversar?

Ainda assim, ela não lhes deu a devida (e educada) atenção.

-Estou ouvindo.

Os homens encararam Greg, que estava no canto, perto das mesas de sinuca, quieto e imóvel, como se fizesse parte do ambiente.

-Em particular.

Greg, obediente, descruzou os braços e se preparou para se retirar. No entanto, Charlotte, ainda entretida nas garrafas, se colocou como senhora da situação.

-Fique onde está, Greg. Não há nenhum segredo entre nós.

Os policiais se entreolharam.

-Acho que você deve imaginar a razão de estarmos aqui.

-Não é nenhuma novidade para mim, desde que vocês começaram a bater ponto no meu bar.

-Da última vez, você disse que não sabia dos negócios da família.

-Eu disse que não me envolvia, e não que não sabia. –Ela retrucou, limpando as mãos em uma tolha imunda. –É claro que sei.

-Pode nos contar?

-Entretenimento, turismo e exportação.

-Detalhe, por gentileza.

Charlie suspirou, impaciente.

-Minha família é dona dos hotéis de Hanzópolis, da maior parte das casas noturnas, incluindo os bares, menos esse é claro, e fabrica e exporta vinhos.

-Certo.

Um deles passou a fazer anotações num pequeno caderno de capa dura.

-Como sabe, investigamos possíveis irregularidades nessas ações.

-Claro.

-E precisamos de sua colaboração.

-Eu estou colaborando. –Ela arrumou as garrafas nas prateleiras espelhadas e apoiou-se no balcão. –O que mais querem? Que eu autorize câmeras e escutas aqui?

Novamente, os oficiais se entreolharam. Sabiam que, apesar de Charlotte ser a rebelde da família, ainda prezava (e muito) a lealdade. E notava-se pela ironia.

-É preciso?

-Vocês que deveriam saber. Não estão investigando a mim e a minha família? Possivelmente sabem muito mais do que eu.

-As informações que temos não são suficientes, por isso precisamos de mais detalhes.

-Eu já disse, não tenho nenhum detalhe.

-Não queremos ferrar ninguém. Queremos apenas a verdade, srta. Fontaine.

-Eu já disse, –a voz ficou ríspida, –Não sei de nada. Olhem em volta, senhores. Esse é o único empreendimento assinado por um Fontaine sem o dedo do meu pai. Não vivo na mansão, não participo de nenhuma reunião de negócios e mal tenho contato com minha família. Acham mesmo que eu sei de alguma coisa?

Os homens olhavam-na, esperando que aquilo fosse uma pergunta retórica. Charlie soltou um riso inconformado.

-Não, eu não tenho nada a ver com os interesses da minha família. Por que não anota isso no seu caderninho aí? E faz o favor de deixar registrado para vocês não esquecerem quando passarem por aquela porta.

-Seus irmãos?

-Perguntem a eles.

-Eles têm alguma relação com os comércios?

-Anota aí: Hector Fontaine, Demitri Fontaine, Vitório Fontaine, Monalisa Fontaine e Guilhermina Fontaine. Anotou? São os nomes deles. Obviamente a Guigui não tem nem idade pra falar por si, quanto mais se envolver nos negócios da família. Agora que sabem, tratem de achar seus endereços, vão procurá-los e perguntem a eles. –Charlotte passou para o outro lado do balcão. –Agora, se me derem licença, tenho um bar para tocar. Meus clientes já vão chegar e, não é por nada, mas presença de policiais não desperta nenhuma confiança ou conforto. Greg, acompanhe esses gentis senhores até a saída.

Não fora necessário Greg se mover; os policiais, insatisfeitos, passaram os olhos no salão e deixaram o local.

-Tiras... Sempre enchendo o saco. –Charlie desabafou.

-Charlie? –Interrompeu o guarda-costas. –Guigui te pediu para visitá-la amanhã.

-Irei. Pela tarde. Ela está bem?

-Está agitada, Charlie. Mas do que o normal.

Ela o olhou, preocupada. Pensou consigo mesma que, com certeza, Guilhermina tivera outras premonições. E alguma coisa lhe dizia que não eram boas novas.

[Trecho inicial do primeiro capítulo de "Ladrões da verdade e da mentira"]

2 comentários:

  1. Reconheço esse contexto. Você postou um pouco dessa história aqui antes, não? Dá vontade de ler mais.

    ResponderExcluir
  2. .. Atualiza o blog pra nós :)

    ResponderExcluir