Estavam virando rotina as visitas dos policiais no CH Bar. Charlotte já estava acostumada. Numa tarde nublada, dois oficiais adentraram no salão mal iluminado, com suas fardas imponentes e olhares de aversão.
-Srta. Fontaine?
Charlie limpava as garrafas de whisky e de vodka, atrás do balcão de madeira escura. Nem sequer se deu ao trabalho de cumprimentá-los.
-Vou começar a cobrar consumação de vocês.
-Podemos conversar?
Ainda assim, ela não lhes deu a devida (e educada) atenção.
-Estou ouvindo.
Os homens encararam Greg, que estava no canto, perto das mesas de sinuca, quieto e imóvel, como se fizesse parte do ambiente.
-Em particular.
Greg, obediente, descruzou os braços e se preparou para se retirar. No entanto, Charlotte, ainda entretida nas garrafas, se colocou como senhora da situação.
-Fique onde está, Greg. Não há nenhum segredo entre nós.
Os policiais se entreolharam.
-Acho que você deve imaginar a razão de estarmos aqui.
-Não é nenhuma novidade para mim, desde que vocês começaram a bater ponto no meu bar.
-Da última vez, você disse que não sabia dos negócios da família.
-Eu disse que não me envolvia, e não que não sabia. –Ela retrucou, limpando as mãos em uma tolha imunda. –É claro que sei.
-Pode nos contar?
-Entretenimento, turismo e exportação.
-Detalhe, por gentileza.
Charlie suspirou, impaciente.
-Minha família é dona dos hotéis de Hanzópolis, da maior parte das casas noturnas, incluindo os bares, menos esse é claro, e fabrica e exporta vinhos.
-Certo.
Um deles passou a fazer anotações num pequeno caderno de capa dura.
-Como sabe, investigamos possíveis irregularidades nessas ações.
-Claro.
-E precisamos de sua colaboração.
-Eu estou colaborando. –Ela arrumou as garrafas nas prateleiras espelhadas e apoiou-se no balcão. –O que mais querem? Que eu autorize câmeras e escutas aqui?
Novamente, os oficiais se entreolharam. Sabiam que, apesar de Charlotte ser a rebelde da família, ainda prezava (e muito) a lealdade. E notava-se pela ironia.
-É preciso?
-Vocês que deveriam saber. Não estão investigando a mim e a minha família? Possivelmente sabem muito mais do que eu.
-As informações que temos não são suficientes, por isso precisamos de mais detalhes.
-Eu já disse, não tenho nenhum detalhe.
-Não queremos ferrar ninguém. Queremos apenas a verdade, srta. Fontaine.
-Eu já disse, –a voz ficou ríspida, –Não sei de nada. Olhem em volta, senhores. Esse é o único empreendimento assinado por um Fontaine sem o dedo do meu pai. Não vivo na mansão, não participo de nenhuma reunião de negócios e mal tenho contato com minha família. Acham mesmo que eu sei de alguma coisa?
Os homens olhavam-na, esperando que aquilo fosse uma pergunta retórica. Charlie soltou um riso inconformado.
-Não, eu não tenho nada a ver com os interesses da minha família. Por que não anota isso no seu caderninho aí? E faz o favor de deixar registrado para vocês não esquecerem quando passarem por aquela porta.
-Seus irmãos?
-Perguntem a eles.
-Eles têm alguma relação com os comércios?
-Anota aí: Hector Fontaine, Demitri Fontaine, Vitório Fontaine, Monalisa Fontaine e Guilhermina Fontaine. Anotou? São os nomes deles. Obviamente a Guigui não tem nem idade pra falar por si, quanto mais se envolver nos negócios da família. Agora que sabem, tratem de achar seus endereços, vão procurá-los e perguntem a eles. –Charlotte passou para o outro lado do balcão. –Agora, se me derem licença, tenho um bar para tocar. Meus clientes já vão chegar e, não é por nada, mas presença de policiais não desperta nenhuma confiança ou conforto. Greg, acompanhe esses gentis senhores até a saída.
Não fora necessário Greg se mover; os policiais, insatisfeitos, passaram os olhos no salão e deixaram o local.
-Tiras... Sempre enchendo o saco. –Charlie desabafou.
-Charlie? –Interrompeu o guarda-costas. –Guigui te pediu para visitá-la amanhã.
-Irei. Pela tarde. Ela está bem?
-Está agitada, Charlie. Mas do que o normal.
Ela o olhou, preocupada. Pensou consigo mesma que, com certeza, Guilhermina tivera outras premonições. E alguma coisa lhe dizia que não eram boas novas.
[Trecho inicial do primeiro capítulo de "Ladrões da verdade e da mentira"]
Reconheço esse contexto. Você postou um pouco dessa história aqui antes, não? Dá vontade de ler mais.
ResponderExcluir.. Atualiza o blog pra nós :)
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