Quando me cansei das Barbies, comecei a construir novos bonecos; usava luvas velhas e papelão para tal. Os nomes dos personagens eram sempre iguais: Nicolas, Vitória, Maria Eduarda e Jean Lucca. Às vezes, Vitória e Jean Lucca eram o casal e Nicolas e Maria Eduarda, os filhos; às vezes, o contrário. De vez em quando, eram apenas amigos que se encontravam para dançar e conversar sobre as dificuldades da vida adulta (limpeza na casa, casamento e promoções no trabalho eram o que eu considerava como "dificuldades").
Para quebrar um pouco essa rotina, eu montava uma sala de aula com livros empilhados e usava meus bichinhos de pelúcia como alunos. Eu era a "Mrs Bondioli"(sim, em inglês e sim, suponhando que eu era uma professora muito bem casada com um veterinário). Ensinava sempre arte, cinema ou português - às vezes história, quando naquela semana minha vó (historiadora nata) havia me dado aulas de reforço.
Houve uma época, no início da adolescência (ou próximo da pré) que lancei-me na aventura de me enturmar com as crianças do meu prédio - na verdade, acabei sendo "obrigada" a tal, quando no meio de minha brincadeira de "o quintal-do-meu-prédio-era-minha-mansão", fui singelamente convidada a participar do Polícia e Ladrão, honrosamente promovido pelo meu irmão caçula (que tinha, e ainda tem, uma notória facilidade de fazer amigos). Obviamente, fui um fracasso. Não gostava de correr (e ainda não gosto) e ficava nervosa com a antecipação de ser encontrada nos meus esconderijos (que, vamos combinar, não eram nada originais: quem não pensaria no topo da árvore?).
Com o tempo, meu fracasso no Polícia e Ladrão foi encoberto pela minha falta de destreza no "Esconde-esconde". Raramente escutavam minha voz ecoando um "Rebi salva o mundo". Mesmo com minha inabilidade, fiz amigas. Ou era o que eu imaginava, uma vez que minha única participação nos nossos encontros era sorrir e/ou rir.
A época que levantaram um cercado de arame entre meu prédio e seu "gêmeo" colidiu com o início de minha extensa história de amor e ódio com meu pai. Era o fim de uma era de esconde-esconde, pique-bandeira, jogo da verdade e Polícia e ladrão. Dali, deu-se início a uma jornada de tardes e noites em frente a um videogame, acampamentos de inverno e verões na Nigéria (onde meu pai mora até hoje). Todo aquele mundo da pequena Rebi havia se diluído e tornado-se publicações em diários cujas capas eram todas desenhadas por mim.
Hoje, brincando com a Charlie (que gosta de pegar panos, abraçá-los, mordê-los e dar constantes chutes), lembrei que de todos os planos que tive na infância sobre as dificuldades da vida adulta, nenhum se parece com os que vivi até agora, 20 e poucos anos depois.
Mas me lembrei também que, em nenhum momento do "mundinho da Rebi" eu imaginei os passos aventureiros que é preciso dar para ser feliz. Fiz escolhas e são ótimas, todas elas, por mais complicadas que sejam, por mais não-convencionais que sejam.
Então, hoje entendo que o "mundinho da Rebi" não terminou; ele só se tornou algo diferente.
E vai continuar mudando, como tudo deve ser.
ResponderExcluirEsperamos, é claro, que se torne um mundo cada vez mais radiante e feliz.
Este comentário foi removido pelo autor.
ResponderExcluirOlha só...
ResponderExcluirA menina mulher... cresceu !!!
e assim a vida se faz...
Que seus lindos sonhos se realizem...
É o que lhe desejo e sempre...
bjs...