sábado, 4 de setembro de 2010

Childhood.

Quando eu era pequena, vivia num mundo só meu. Tomava coca-cola com guaraná (o famoso "guaracola") e tramava histórias com minhas Barbies junto com os Thundercats dos meus irmãos. Às vezes, quando eles permitiam (ou estavam ocupados com outros brinquedos), eu construía cidades com os LEGOs. Imaginava famílias tendo suas vidas comuns, em rotinas comuns, em lugares comuns.

Quando me cansei das Barbies, comecei a construir novos bonecos; usava luvas velhas e papelão para tal. Os nomes dos personagens eram sempre iguais: Nicolas, Vitória, Maria Eduarda e Jean Lucca. Às vezes, Vitória e Jean Lucca eram o casal e Nicolas e Maria Eduarda, os filhos; às vezes, o contrário. De vez em quando, eram apenas amigos que se encontravam para dançar e conversar sobre as dificuldades da vida adulta (limpeza na casa, casamento e promoções no trabalho eram o que eu considerava como "dificuldades").

Para quebrar um pouco essa rotina, eu montava uma sala de aula com livros empilhados e usava meus bichinhos de pelúcia como alunos. Eu era a "Mrs Bondioli"(sim, em inglês e sim, suponhando que eu era uma professora muito bem casada com um veterinário). Ensinava sempre arte, cinema ou português - às vezes história, quando naquela semana minha vó (historiadora nata) havia me dado aulas de reforço.

Houve uma época, no início da adolescência (ou próximo da pré) que lancei-me na aventura de me enturmar com as crianças do meu prédio - na verdade, acabei sendo "obrigada" a tal, quando no meio de minha brincadeira de "o quintal-do-meu-prédio-era-minha-mansão", fui singelamente convidada a participar do Polícia e Ladrão, honrosamente promovido pelo meu irmão caçula (que tinha, e ainda tem, uma notória facilidade de fazer amigos). Obviamente, fui um fracasso. Não gostava de correr (e ainda não gosto) e ficava nervosa com a antecipação de ser encontrada nos meus esconderijos (que, vamos combinar, não eram nada originais: quem não pensaria no topo da árvore?).

Com o tempo, meu fracasso no Polícia e Ladrão foi encoberto pela minha falta de destreza no "Esconde-esconde". Raramente escutavam minha voz ecoando um "Rebi salva o mundo". Mesmo com minha inabilidade, fiz amigas. Ou era o que eu imaginava, uma vez que minha única participação nos nossos encontros era sorrir e/ou rir.

A época que levantaram um cercado de arame entre meu prédio e seu "gêmeo" colidiu com o início de minha extensa história de amor e ódio com meu pai. Era o fim de uma era de esconde-esconde, pique-bandeira, jogo da verdade e Polícia e ladrão. Dali, deu-se início a uma jornada de tardes e noites em frente a um videogame, acampamentos de inverno e verões na Nigéria (onde meu pai mora até hoje). Todo aquele mundo da pequena Rebi havia se diluído e tornado-se publicações em diários cujas capas eram todas desenhadas por mim.

Hoje, brincando com a Charlie (que gosta de pegar panos, abraçá-los, mordê-los e dar constantes chutes), lembrei que de todos os planos que tive na infância sobre as dificuldades da vida adulta, nenhum se parece com os que vivi até agora, 20 e poucos anos depois.

Mas me lembrei também que, em nenhum momento do "mundinho da Rebi" eu imaginei os passos aventureiros que é preciso dar para ser feliz. Fiz escolhas e são ótimas, todas elas, por mais complicadas que sejam, por mais não-convencionais que sejam.

Então, hoje entendo que o "mundinho da Rebi" não terminou; ele só se tornou algo diferente.


3 comentários:

  1. E vai continuar mudando, como tudo deve ser.
    Esperamos, é claro, que se torne um mundo cada vez mais radiante e feliz.

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  2. Este comentário foi removido pelo autor.

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  3. Olha só...

    A menina mulher... cresceu !!!

    e assim a vida se faz...

    Que seus lindos sonhos se realizem...

    É o que lhe desejo e sempre...

    bjs...

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