Pinga. Pinga. Pinga. Pinga. Era quase enlouquecedor. Pinga. Pinga. Pinga. O mesmo barulho. No mesmo tom. Com o mesmo intervalo. Com o mesmo tempo. Numa constância irritante. Pinga. Pinga. Pinga.
Na escuridão onde se encontrava, aquilo chegava a ser apenas um detalhe. Na umidade onde se espremia, aquilo chegava a ser diminuto demais para se importar. Eram apenas gotas d’água caindo. De onde, não importava. Quem se importaria com aquilo? Ninguém. Era só um barulhinho comum. Quase inaudível. Mas não era comum. Não mais. Não após todos aqueles dias. Achou que uma hora ia se acostumar, mas essa hora jamais chegou. Foi quando imaginou que levaria aquele ruído para o resto da vida.
Várias vezes tentou promover um som diferente. Um assobio. Um batuque nas paredes rochosas ou mesmo uma batidinha com o pé no chão úmido. Mas a exaustão era forte demais. A sensação de abandono também. Muitas vezes o delírio pregava peças em sua mente. Muitas vezes tentou chorar e gritar. Muitas vezes esquecia como foi parar ali. Num lugar tão escuro. Num lugar tão pequeno. Num lugar tão frio. Num lugar tão morto.
Foi quando ouviu um som distinto. Sua atenção se voltou a ele. Concentrou-se. Não era gota d’água. Não vinha de seu corpo. Vinha de fora. Vinha detrás daquela parede... Ou seria um portão? Não importava. Vinha dali, tinha certeza. O eco já não era tão traiçoeiro assim. Passos. Eram passos. Tentou se mover. Lembrou-se das mãos atreladas àquela amarra pesada. Alguém se aproximava.
De repente, uma claridade. De repente, uma sombra.
-Vamos embora, Laffer.
Voz masculina. Silhueta de um homem robusto. Não reparou em nenhum outro detalhe. De alguma forma, se colocou de pé. As amarras se soltaram. Estava livre de um peso. Cambaleava; o homem segurava seu braço e guiava seus passos.
-Acho que agora cê aprendeu a lição, não Laffer?
Ele voltou a dizer, enquanto seus olhos eram machucados pela luz dos corredores. Percebeu que entrou num elevador, percorreu mais alguns metros de corredor e colocada numa sala; desta vez bem iluminada, com cama, cadeira e um pequeno lavabo. Percebeu então que aquele lugar lhe era familiar. Tinha passado por ali, em algum momento.
-Bem-vinda ao lar, feiticeira.
O homem disse finalmente, fechando a porta com agressividade.
Olhou em volta. Seu pensamento envolto ao que ele tinha lhe chamado. Trazia-lhe lembranças também. Fitou uma câmera na quina.
E lembrou.
[Trecho de "Sentinela", por Rebeca Bondioli - dezembro/2006]
Este trecho tem um gostinho de "quero mais".
ResponderExcluirSe não for muito incômodo, acredito que eu não seria o único a me deleitar com sua impressionante aptidão literária.